Universidade de Brasília forma o primeiro linguísta Sateré-Mawé

 

A Universidade de Brasília (UnB) celebrou, no dia 6 de março de 2025, a defesa de mestrado de José de Oliveira dos Santos Silva – Nek’i, o primeiro linguista Sateré-Mawé formado pela instituição. 

Em sua pesquisa, José apresentou uma proposta de análise das “Partículas Enunciativas em Sateré-Mawé”. 

Segundo Fernandez (1994), essas partículas são pequenas palavras que não alteram o sentido proposicional do enunciado, mas conferem nuances enunciativas e pragmáticas essenciais para sua interpretação.

Para José, a obtenção do título de mestre representa a culminância de anos de dedicação à sua língua e cultura. 

Ele se destaca como uma das vozes mais ativas na defesa dos direitos linguísticos e culturais do povo Sateré-Mawé, tendo uma trajetória marcada pelo compromisso com a valorização das tradições ancestrais e o fortalecimento da identidade indígena.

Professor em seu território desde 1998, José contribuiu diretamente para a melhoria da qualidade da educação na Terra Indígena Andirá-Marau. 

Seu engajamento o levou à coordenação da Organização dos Professores Indígenas Sateré-Mawé dos rios Andirá e Waikurapá (Opisma), cargo que ocupou por dois mandatos. 

Durante sua gestão, a Opisma, com o apoio de indigenistas, conquistou recursos para a implementação de projetos voltados ao fortalecimento da educação escolar e tradicional.

Entre essas iniciativas, destaca-se o projeto “Revitalização da Língua e das Práticas Culturais Sateré-Mawé”, financiado pelo UNICEF. 

Esse projeto viabilizou a realização de cerca de 30 oficinas sobre artes tradicionais para adolescentes e jovens, além de encontros voltados para professores, lideranças, mulheres, agentes de saúde, pajés e parteiras. 

Todas essas atividades foram conduzidas por professores Sateré-Mawé, reforçando o protagonismo indígena na transmissão dos saberes tradicionais.

Mais recentemente, José teve importante papel na criação da Rádio Comunitária Sateré Ty (“Mãe do Sateré”), uma iniciativa voltada para a difusão da língua e cultura Sateré-Mawé. 

Além de atuar como presidente da associação responsável pela rádio, ele também contribui como produtor de conteúdo e locutor. 

Inaugurada em dezembro de 2021, sob liderança de Padre Henrique Uggé, a rádio oferece uma programação bilíngue, abordando temas como utilidade pública, saúde, educação, meio ambiente, espiritualidade, identidade e cultura Mawé, além de notícias sobre outros povos indígenas.

Um dos programas de destaque da rádio é o Sateré Nag̃nia Epopera Wato (“Grande livro dos sábios”), produzido e apresentado pelo próprio José. 

O programa tem como objetivo a transmissão dos saberes tradicionais do povo Mawé, especialmente por meio de narrativas ancestrais que fazem parte do legado cultural do povo. 

Além disso, são promovidas entrevistas com anciãos e jovens, nas quais são compartilhadas histórias e reflexões sobre a cultura, a história e a identidade Sateré-Mawé.

Com uma trajetória marcada pelo engajamento e pela dedicação à sua língua e cultura, José Sateré-Mawé se consolida como uma referência na luta pela educação indígena e pelo fortalecimento das tradições de seu povo. 

Seu trabalho evidencia a importância de lideranças comprometidas com a revitalização linguística e a preservação dos saberes ancestrais, contribuindo para a reafirmação da identidade dos povos originários do Brasil.

Impressão de José, após sua defesa: 

“Esse mestrado pra mim é um novo ciclo, um caminho que vai e volta entre o universo tradicional Sateré e o mundo da ciência. O nosso mundo tem muito a oferecer para ciência, nossos saberes, nossa língua, nossas maneiras de ver e entender as coisas. E a ciência também pode ser uma ferramenta pra fortalecer nossa língua e nossa cultura, porque, como dizem, o ser humano valoriza mais aquilo que conhece melhor. Se a gente conhece mais a nossa língua, a tendência é valorizar mais.

As partículas enunciativas, por exemplo, quase não são estudadas, nem mesmo na linguística. Com esse trabalho, eu quis trazer as partículas da língua Sateré-Mawé para mostrar essa riqueza que temos e que o português não tem. Esse estudo abre um caminho novo para pesquisa da nossa língua, um caminho que precisa ser feito por nós, falantes, porque a gente consegue perceber as nuances de sentido. Agora, minha esperança é que meu povo olhe mais para as partículas enunciativas e passe a valorizar ainda mais nossa língua como um todo.”.

Por: Denize Carneiro

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