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Para José, a obtenção do título de mestre representa a culminância de anos de dedicação à sua língua e cultura.
Ele se destaca como uma das vozes mais ativas na defesa dos direitos linguísticos e culturais do povo Sateré-Mawé, tendo uma trajetória marcada pelo compromisso com a valorização das tradições ancestrais e o fortalecimento da identidade indígena.
Professor em seu território desde 1998, José contribuiu diretamente para a melhoria da qualidade da educação na Terra Indígena Andirá-Marau.
Seu engajamento o levou à coordenação da Organização dos Professores Indígenas Sateré-Mawé dos rios Andirá e Waikurapá (Opisma), cargo que ocupou por dois mandatos.
Durante sua gestão, a Opisma, com o apoio de indigenistas, conquistou recursos para a implementação de projetos voltados ao fortalecimento da educação escolar e tradicional.
Entre essas iniciativas, destaca-se o projeto “Revitalização da Língua e das Práticas Culturais Sateré-Mawé”, financiado pelo UNICEF.
Esse projeto viabilizou a realização de cerca de 30 oficinas sobre artes tradicionais para adolescentes e jovens, além de encontros voltados para professores, lideranças, mulheres, agentes de saúde, pajés e parteiras.
Todas essas atividades foram conduzidas por professores Sateré-Mawé, reforçando o protagonismo indígena na transmissão dos saberes tradicionais.
Mais recentemente, José teve importante papel na criação da Rádio Comunitária Sateré Ty (“Mãe do Sateré”), uma iniciativa voltada para a difusão da língua e cultura Sateré-Mawé.
Além de atuar como presidente da associação responsável pela rádio, ele também contribui como produtor de conteúdo e locutor.
Inaugurada em dezembro de 2021, sob liderança de Padre Henrique Uggé, a rádio oferece uma programação bilíngue, abordando temas como utilidade pública, saúde, educação, meio ambiente, espiritualidade, identidade e cultura Mawé, além de notícias sobre outros povos indígenas.
Um dos programas de destaque da rádio é o Sateré Nag̃nia Epopera Wato (“Grande livro dos sábios”), produzido e apresentado pelo próprio José.
O programa tem como objetivo a transmissão dos saberes tradicionais do povo Mawé, especialmente por meio de narrativas ancestrais que fazem parte do legado cultural do povo.
Além disso, são promovidas entrevistas com anciãos e jovens, nas quais são compartilhadas histórias e reflexões sobre a cultura, a história e a identidade Sateré-Mawé.
Com uma trajetória marcada pelo engajamento e pela dedicação à sua língua e cultura, José Sateré-Mawé se consolida como uma referência na luta pela educação indígena e pelo fortalecimento das tradições de seu povo.
Seu trabalho evidencia a importância de lideranças comprometidas com a revitalização linguística e a preservação dos saberes ancestrais, contribuindo para a reafirmação da identidade dos povos originários do Brasil.
Impressão de José, após sua defesa:
“Esse mestrado pra mim é um novo ciclo, um caminho que vai e volta entre o universo tradicional Sateré e o mundo da ciência. O nosso mundo tem muito a oferecer para ciência, nossos saberes, nossa língua, nossas maneiras de ver e entender as coisas. E a ciência também pode ser uma ferramenta pra fortalecer nossa língua e nossa cultura, porque, como dizem, o ser humano valoriza mais aquilo que conhece melhor. Se a gente conhece mais a nossa língua, a tendência é valorizar mais.
As partículas enunciativas, por exemplo, quase não são estudadas, nem mesmo na linguística. Com esse trabalho, eu quis trazer as partículas da língua Sateré-Mawé para mostrar essa riqueza que temos e que o português não tem. Esse estudo abre um caminho novo para pesquisa da nossa língua, um caminho que precisa ser feito por nós, falantes, porque a gente consegue perceber as nuances de sentido. Agora, minha esperança é que meu povo olhe mais para as partículas enunciativas e passe a valorizar ainda mais nossa língua como um todo.”.
Por: Denize Carneiro
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